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Não
existem duas verdades. Tão desaconselhável como
recomendar bebidas alcoólicas para todas as pessoas
é promover a abstinência.
No ato de beber existem riscos e benefícios que devem
ser avaliados para cada pessoa.
No dia 2 de dezembro vários sites de notícias
como o Yahoo News, Google News, CNN, BBC e outros tantos meios
de comunicação nacionais e internacionais divulgaram
comentários sobre o artigo “Alcohol and ischaemic
Heart disease: probably no free lunch”, de autoria de
Rod Jackson, Joanna Broad, Jennie Connor, Susan Wells, da
Escola de Saúde Pública da Universidade de Auckland,
Auckland, Nova Zelândia. Este artigo foi publicado no
último número da prestigiada revista científica
The Lancet e está anexo para juízo de vocês.
A maioria dos comentários e mesmo das manchetes divulgadas
pela imprensa sobre este “estudo” afirmam que
a ingestão mesmo moderada de bebidas alcoólicas
não traz benefícios para doenças isquêmicas
do coração. Isso se contrapõem ao que
até aqui se sabe. Ora, não existem duas verdades.
Isso precisa ser melhor compreendido. E para tal vou fazer
algumas considerações.
1. O artigo em questão é apenas um comentário
e não um estudo. Ele expressa apenas a opinião
de um grupo de professores da Escola de Saúde Pública
da Universidade de Auckland, Auckland, Nova Zelândia.
2.
Os autores nada mais fazem do que já foi feito inúmeras
vezes: levantam a dúvida se os benefícios atribuídos
à ingesta baixa de álcool se devem mesmo ao
álcool ou a outros fatores que podem estar associados
a este hábito. Eles fundamentam sua idéia no
fato dos estudos feitos nas décadas de 70 e 80 serem
observacionais, isto é, apenas mostram que existe uma
relação entre a ingesta leve e moderada de bebidas
alcoólicas e menor risco de doenças cardiocirculatórias,
mas não evidenciam a causa. E por isso o motivo talvez
não fosse o hábito de tomar bebidas alcoólicas.
Os autores desconsideram os estudos caso-controles realizados
na década passada e essa.
3.
O texto produzido pelos neozelandeses não é
uma tese. É apenas uma hipótese. E como tal
necessita ser demonstrada. Acho até que esta tese já
foi demonstrada como falsa em milhares de estudos já
publicados. Para citar apenas um, publicado na mesma revista
(The Lancet), cito o estudo INTERHEART [i] – possivelmente
a publicação médica mais relevante do
ano passado (setembro de 2004). É um estudo caso-controle
(não mais um estudo observacional) com dados de 29.972
pacientes de 52 países e evidenciou que a ingesta regular
de bebidas alcoólicas se constitui em importante fator
de proteção para doenças isquêmicas
do coração (IHD – sigla em inglês
e que aparece no trabalho dos neozelandeses) em todas faixas
etárias (de adultos), sexos, raças e regiões.
4.
O que consta no comentário do Dr. Jackson e colegas
não é uma afirmação. É
uma dúvida. Ao contrário do que nos fazem crer
muitas das manchetes que correram o mundo nos últimos
dias. No portal do UOL e do TERRA, por exemplo, está
lá “Álcool faz mais mal que bem, mesmo
em pequenas doses, diz estudo”, em artigo distribuído
pela BBC Brasil. Como já vimos: este não é
um “estudo”, é um artigo de opinião.
Tão pouco é feita esta afirmação.
Os autores apenas levantam dúvidas sobre se seria mesmo
a ingesta leve e moderada de álcool ou o comportamento
dos bebedores leve e moderados de bebidas alcoólicas
o real responsável pelos benefícios evidenciados.
5.
Os próprios autores no referido artigo afirmam: “So
if the debate is framed as coronary protection versus no coronary
protection, we remain believers in protection” [Tradução
livre: “Se o debate for em cima de proteção
coronária versus nenhuma proteção, nós
permanecemos crentes na proteção”.
6.
Os autores do artigo da The Lancet não fazem qualquer
referência a tipos diferentes de bebidas alcoólicas.
As referências ao vinho feitas em artigos da mídia
leiga não constam na publicação dos neozelandeses.
7.
Existem hoje muitas evidências científicas que
a ingesta leve e moderada de bebidas alcoólicas, sobretudo
o vinho, por quem não tenha contra-indicação
ao seu uso, é benéfica para a saúde do
homem. Consideremos que todas estas evidências estejam
equivocadas. Isso é possível. Uma vez, baseado
em evidências, pensava-se que a terra fosse quadrada.
Consideremos também que a hipótese sugerida
pelo Dr. Rod Jackson e colegas esteja certa e que a real causa
do efeito protetor seja o comportamento dos bebedores leve
e moderados e não o álcool. Isso não
muda os resultados. O comportamento mais saudável dos
bebedores leve e moderados, sugerido pelos neozelandeses,
é apenas um dos efeitos benéficos que acompanha
esse hábito. Tanto faz se é causa ou conseqüência.
Esta é uma questão que deve ser tratada com
clareza, honestidade e sem paixões. Espero ter contribuído
para isso, pois: não existem duas verdades. Tão
desaconselhável como recomendar bebidas alcoólicas
para todas as pessoas é promover a abstinência.
No ato de beber existem riscos e benefícios que devem
ser avaliados para cada pessoa.

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