02/11/2006
Uma substância encontrada no vinho tinto pode prolongar
a vida e combater os efeitos negativos de uma dieta rica
em gordura, descobriram cientistas da Escola Médica
de Harvard e do Instituto Nacional do Envelhecimento (EUA).
Um estudo sobre o metabolismo (processamento de energia)
em camundongos mostrou os benefícios do composto
resveratrol, na comparação entre três
grupos de roedores.
Enquanto o primeiro foi alimentado com
uma dieta normal, o os outros dois tinham refeições
ricas em gordura. O terceiro grupo também tomava
um extrato de resveratrol. Após 15 meses, os roedores
do segundo grupo se tornaram obesos e morreram mais cedo
do que os do primeiro grupo. O terceiro grupo, porém,
conseguiu viver tanto quanto os camundongos de dieta normal,
mesmo ingerindo mais calorias, auxiliado pelo resveratrol.
Essa foi a primeira vez que se demonstrou
tal efeito em mamíferos. "Após seis meses,
o resveratrol preveniu a maioria dos efeitos negativos da
dieta hipercalórica nos camundongos", diz Rafael
de Cabo, um dos coordenadores do estudo, publicado hoje
na revista "Nature" (www.nature.com). Os roedores
que tomaram resveratrol mantiveram sua sensibilidade à
insulina, hormônio que regula o metabolismo de glicose
e outros carboidratos. Como conseqüência, evitaram
problemas de fígado e coração, mesmo
sem se tornar magros.
Talvez seja possível que a molécula
previna doenças como diabetes tipo 2, cardiopatias
e câncer, disse David Sinclair, outro autor da pesquisa.
"Mas só com mais tempo e pesquisas poderemos
saber", diz.
Os cientistas ainda vão esperar
todos os roedores usados no estudo morrerem de causas naturais
para fechar os números, mas até agora os resultados
têm sido claramente favoráveis ao resveratrol,
que também deu mais agilidade motora aos camundongos
glutões.
Manutenção das vias
Uma análise genética de vias
metabólicas (cadeias de reações químicas
no organismo) que normalmente são afetadas por dietas
hipercalóricas também revelou benefícios
da molécula estudada. "O resveratrol reverteu
os efeitos [maléficos] da ingestão de muitas
calorias em 144 das 153 vias que são alteradas",
diz Sinclair.
Além disso, ao compararem o padrão
de ligamento e desligamento de genes dos animais, os cientistas
viram que o grupo alimentado com resveratrol era mais parecido
com o de dieta normal do que com o outro.
A molécula parece funcionar por
meio da ativação de um gene de múltiplas
funções denominado SIRT1. Ele contém
a receita para o corpo produzir uma enzima relacionada à
longevidade nos roedores.
Brinde com moderação
Em artigo comentando o trabalho de Sinclair
na "Nature", outros cientistas saudaram a boa
notícia, mas dizem que ainda é cedo para receitar
comprimidos de resveratrol como uma panacéia. (E
embriaguez de vinho tinto tampouco deve ajudar, já
que malefícios do excesso de álcool podem
superar os benefícios do resveratrol.)
"Aconselhamos cautela", escreveram
Matt Kaeberlein e Peter Rabinovich, da Universidade de Washington
em Seattle. "A segurança do resveratrol em humanos
para doses altas semelhantes às usadas [nos roedores]
é desconhecida, sobretudo ao longo de anos."
Eles recomendam, porém, uma boa maneira de aguardar
novas informações: "Sentar e relaxar
com uma taça de vinho tinto, que, aliás, tem
apenas 0,3% da dose relativa de resveratrol dada aos camundongos
glutões."
Autor: STEVE CONNOR
Fonte: Folha de São Paulo
