Izabel Leão
Pessoas com doenças no coração agora
podem ter um pouco de esperança na cura e prevenção
dos problemas coronários. Um estudo que está
sendo realizado pelo Serviço de Cardiologia do Instituto
do Coração (Incor) vem revelando que o consumo
moderado de vinho tinto ou suco de uva pode reduzir substancialmente
as placas arteroscleróticas que se formam na aorta
quando há altos índices de colesterol e acabam
causando o enfarte ou a angina. A pesquisa experimental coordenada
pelo médico Protásio Lemos da Luz, diretor da
Divisão Clínica do Incor, se baseou no acompanhamento
de coelhos há mais de dois anos. Mais recentemente,
foram iniciados testes em seres humanos.
O
interesse dos pesquisadores surgiu a partir do chamado Paradoxo
Francês, um fenômeno verificado em grande parte
da população francesa, a qual apresenta alta
taxa de colesterol e baixa incidência de doenças
coronárias. Verificou-se que a dieta alimentar francesa,
rica em produtos gordurosos, não revertia em problemas
cardíacos, já que as pessoas examinadas não
apresentavam infartos ou angina em proporções
elevadas. Este foi o ponto de partida para o pesquisador e
sua equipe desvendarem o mistério. "Quando foi
comparada a dieta de vários países europeus
encontrou-se uma relação direta entre a quantidade
de gordura e a incidência de doença coronária.
França, Noruega, Alemanha, Inglaterra e Dinamarca estão
entre os países em que a incidência da doença
é mais baixa. Acredita-se que isto se deva ao consumo
de vinho."
Segundo
Lemos da Luz, o teste que vem sendo desenvolvido em coelhos
se insere no estudo da chamada Teoria Oxidativa da Arterosclerose.
"Hoje sabemos que a partícula de LBL (um tipo
de colesterol encontrado no sangue) é mais heterogênea
quando sofre um processo de oxidação."
Vinho
e suco de uva
Era
importante descobrir, de acordo com o médico, se uma
substância antioxidante teria uma ação
protetora contra a formação de placa de arterosclerose,
por exemplo, o vinho. "Baseados em dados experimentais
e químicos percebemos que o vinho tinto é tido
como anti-oxidante importante, inclusive é mais forte
que a vitamina E."
Este
trabalho do Incor é pioneiro, na medida em que levanta
a possibilidade de tratamento medicamentoso para reduzir a
formação de placas arteroscleróticas.
Até então isso era conseguido apenas com drogas
que reduzem o colesterol, como a estatina (uma droga sintética
muito eficiente). "Hoje, com base nos estudos que estamos
desenvolvendo, admitimos que é possível reverter
este quadro somente com a ingestão moderada de vinho,
rico em produtos fenólicos, os chamados flavonóides",
afirma Protásio Lemos da Luz.
Por
se tratar de um avanço potencialmente importante para
a medicina cardiovascular, o professor da Faculdade de Medicina
da USP vem buscando aprimorar a pesquisa, e para isso resolveu
testar o suco de uva já que o vinho contém álcool
e quando consumido em quantidades elevadas apresenta efeitos
colaterais sérios.
A
pesquisa foi dividida em três grupos de animais. O primeiro
grupo, chamado de controle, recebeu apenas uma dieta de 1%
de colesterol, o outro recebeu a dieta mais o vinho e o terceiro,
além da dieta, recebeu produtos não alcoólicos
do vinho. Esses produtos são o resultado de vinho esquentado
a 500 Celsius para evaporação do álcool.
Os
animais passaram a receber 3,2 ml de vinho ou de produtos
não alcoólicos por dia. A medida da arterosclerose
nesse caso é feita por uma coloração
da aorta em que é possível realizar depois a
planimetria das áreas cobertas pela placa e expressar
isso como uma porcentagem da área total. "Concluímos
que nos animais controle 69% da área da aorta estava
coberta por placa devido a essa dieta com 1% de colesterol,
já os animais do segundo grupo tiveram a taxa reduzida
para 38% e os animais que receberam produtos não alcóolicos
tiveram redução de 45% aproximadamente."
Segundo
Lemos da Luz, os dois tratamentos com vinho e produtos não
alcoólicos levaram a uma diminuição na
formação de placa mesmo com o colesterol aumentado.
"O mais curioso", observa o médico, "é
que nessa experiência constatamos não ser preciso
ter colesterol para ocorrer a formação de placas
de arterosclerose".
Um
ou dois cálices por dia
No
caso dessas experiências o colesterol do plasma estava
aumentado, porém as placas diminuíram. Para
o médico, esse estudo sugere que existe influência
de outros mecanismos. "Esses mecanismos talvez ligados
justamente à ação dos compostos flavonóides
que existem no vinho, nos chamados produtos não alcoólicos
do vinho, nas frutas e vegetais."
Flavonóides
são substâncias químicas que exercem uma
série de funções, entre as quais a de
serem antiinflamatórios. São encontrados nas
folhas da uva, na maçã, na cebola e em alguns
chás, principalmente nos pretos.
A
pesquisa realizada em humanos é bem diferente da dos
animais. As placas estão sendo medidas através
da função do vaso periférico do braço.
"Através do ultra-som podemos medir o diâmetro
e o fluxo da artéria. Durante uma semana será
ingerido vinho, e depois o suco de uva para verificarmos se
o vaso dilata mais ou menos. Constatado isso poderemos dizer
se o suco de uva também pode agir como oxidante. O
bom é que é uma coisa natural, sem álcool."
"Embora
o vinho seja um excelente redutor das placas de gordura em
pessoas com colesterol alto, não recomendo o consumo
periódico do produto com esta finalidade, pois não
podemos esquecer dos riscos de ingestão de uma bebida
alcoólica", alerta o médico. "O ideal
é um ou dois cálices por dia, mas há
o risco da dependência, que pode se tornar um elemento
detonador de outras doenças."
Esse
estudo vem sendo financiado pela Fapesp e o grupo de voluntários
foi escolhido entre os que apresentaram colesterol aumentado.
Com
a redução do colesterol há uma redução
dos chamados eventos coronários, ou seja, a necessidade
de cirurgias, angioplastias, incidências de infarto.
"Se podemos melhorar ainda mais esse tratamento, buscando
novas alternativas, por que não fazê-lo?",
pergunta Lemos da Luz.
Fonte:
http://www.usp.br/jorusp/arquivo/1998/jusp440/manchet/rep_res/rep_int/cultura1.html

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